16/10/2008 -Vendas de equipamentos médicos crescem até 70%
  por Gazeta Mercantil

A alta do dólar e o aperto do crédito, que encarecem a aquisição de máquinas e equipamentos, não devem afetar as vendas de aparelhos médicos. Pelo menos é o que garantem os principais fabricantes em atuação no País, que podem até se beneficiar da desvalorização do real para incrementar as exportações, prejudicadas ao longo dos últimos anos pelo real mais forte. No entanto, a possibilidade de acirramento da crise poderia interferir nos gastos do governo com a Saúde, que poderiam ser contingenciados, prejudicando vendas ao setor público.

"O que observamos é que os clientes mantêm as previsões de investimentos, mas no mês de outubro, ninguém vai se comprometer com datas", afirmou Claudia Goulart, gerente-geral para a divisão de cuidados com a saúde da GE na América Latina. "Esperamos que no mês que vem, quando o cenário estiver mais estabilizado, os negócios voltam ao normal."

Os clientes da empresa precisarão enfrentar custos de crédito mais altos. É que a empresa agora oferece crédito a taxa libor mais 8%. Anteriormente o crédito era oferecido a libor mais 2% a 3%. Claudia afirmou que não verificou problemas com o pagamento das parcelas dos financiamentos já realizados, que foram realizados a taxa fixas mas seguindo a variação cambial. "Nessas ocasiões, é normal que o cliente mude a data de remessa, provavelmente na semana passada ninguém fechou remessa, mas esta semana com o cambio a taxas um pouco melhores, a situação se normaliza."

Na Siemens, há muita confiança no futuro promissor do setor. Não é para menos, a companhia, que encerra o exercício em setembro, registrou nos 12 meses terminados no último dia 30 crescimento de 70% nas encomendas de equipamentos médicos, em valores contabilizados em euros. Muito acima dos 19% previstos pelo mercado e quase o dobro dos 36% contabilizados pela concorrente GE, de janeiro a setembro.

Segundo o diretor da unidade de soluções médicas da Siemens, Renato Buselli, entre as razões para tal crescimento estão o lançamento de uma maior quantidade de produtos, "mais adequados ao mercado brasileiro", e a maior disponibilidade - já que a companhia se antecipou e realizou importações antes mesmo que os negócios fossem fechados -, e a reestruturação da área de vendas, iniciada em 2006 e que aumentou a força própria.

Buselli disse não acreditar na retração do mercado. Para ele, o envelhecimento da população e a preocupação por parte dos operadores de saúde em reduzir os custos com tratamento - e portanto incrementar a atuação em diagnóstico antecipado - devem garantir um crescimento das vendas de equipamentos, mesmo que o custo dos aparelhos encareça um pouco devido ao dólar mais caro. "Se analisarmos bem, percebemos que a oscilação do câmbio não é tão grande assim", disse, citando que o aumento do imposto predial, dos salários e da taxa de inflação ao longo dos cinco anos foi acima da variação do câmbio no mesmo período . "O dólar a R$ 1,7 é que era irreal."

Tanto a Siemens como a GE garantiram que mantêm em curso os planos de investimentos. A Siemens, que possui uma fábrica de equipamentos para raio X, planeja a construção de uma nova unidade, que deverá ter duas linhas, uma de equipamentos para mamografia e outra para um aparelho ainda mantido em sigilo. A previsão é de que a nova fabrica, que tem investimento previsto em US$ 30 milhões, entre em operação no final de 2009, embora a companhia ainda esteja avaliando o melhor local para a sua instalação. Na GE já está em curso a construção de uma fábrica de US$ 50 milhões que produzirá equipamentos de raio X em Contagem (MG). A previsão é que a unidade entrará em operação até meados do ano que vem.

"Não se pode deixar que um pequeno momento de adversidade contamine e distraia a atenção", disse Buselli, que defende a desburocratização dos trâmites de comercio exterior, de forma a estimular o fortalecimento do parque fabril de equipamentos médicos. A companhia, informou, chega a levar 15 dias para liberar componentes ou equipamentos da alfândega.

Esse foi um dos principais motivos que levou a Philips a investir US$ 300 milhões na implantação de uma fábrica de aparelhos de ressonância magnética em Lagoas Santa (MG), inaugurada ontem. A unidade, que também produz equipamentos de raio X digital, passará a fabricar equipamentos de tomografia computadorizadas dentro de três meses. Segundo o vice presidente da Philips para a área de cuidados com a saúde, Dauzio Sperazini, os produtos importados exigem um prazo de oito meses para a entrega, pois inclui a viagem de navio e o tempo gasto com desembaraço aduaneiro. "Os equipamentos brasileiros serão entregue apenas 15 dias depois de realizado o pedido", declarou. Os concorrentes ressaltam, porém, que cerca de 70% dos aparelhos de ressonância que serão produzidos no País possuem conteúdo nacional. E que o incentivo de importação que alguns estados dão compensarão eventuais ganhos de custo que a Philips têm e minimizam o impacto prejudicial da produção nacional nas vendas.

Sperazini avalia que o mercado brasileiro é muito promissor, sobretudo no setor público, que são desaparelhados nessa área. No entanto, Franco Pallamolla, presidente da Associação dos Fabricantes de Produtos Médicos e Odontológicos (Abimo), avalia que se a crise se intensificar, o governo pode se ver obrigado a reduzir gastos. A associação mantém a previsão de crescimento de em 19% para este ano. Para 2009, porém, Pallamolla, agora trabalha com alta de 10% a 15%, ante os 18% inicialmente previstos. "Os exportadores de equipamentos não informaram qualquer dificuldade por problemas de crédito e até acredito que podem encontrar oportunidades, ja que algumas empresas recuperam fôlego depois de restringir as vendas externas por conta do crédito", acrescentou.